“Horizontes. Memória e pele”, de David Catá, abre no Instituto Cervantes RJ. Projeto inédito no Brasil investiga o corpo como território da memória e do pertencimento.
O corpo como arquivo sensível, superfície de inscrição e território de memória. É a partir dessa perspectiva que o artista galego David Catá apresenta, pela primeira vez no Brasil, a exposição “Horizontes. Memória e pele”, em cartaz de 9 de abril a 9 de junho, no Instituto Cervantes RJ, com a colaboração do setor Cultural da Embaixada da Espanha no Brasil.
“Cada horizonte é um lugar vivido. Não é meramente uma paisagem geográfica, mas um território emocional e autobiográfico. Ao ser costurada na pele, a paisagem deixa de ser algo externo e torna-se parte do corpo: uma fronteira difusa entre o que é habitado e o que se é.”
—David Catá
HORIZONTES QUE ATRAVESSAM A EXPERIÊNCIA PESSOAL E SE TRANSFORMAM EM CARTOGRAFIAS AFETIVAS
Na obra do artista espanhol David Catá, o corpo deixa de ser apenas suporte para tornar-se território simbólico onde memória, identidade e pertencimento se entrelaçam. Essa investigação ganha novos contornos em Horizontes. Memória e pele, projeto no qual o artista radicaliza um gesto recorrente em sua prática: bordar diretamente sobre a própria pele, transformando-a em superfície sensível de inscrição do mundo.
Multidisciplinar, David Catá transita com fluidez entre pintura, vídeo, música, fotografia e performance, articulando linguagens diversas em torno de uma poética íntima e, ao mesmo tempo, política. Em Horizontes, as paisagens costuradas no corpo instauram uma tensão constante entre interior e exterior, indivíduo e território. Ao marcar a pele com linhas e formas que evocam lugares e experiências, o artista cria imagens que não apenas representam memórias, mas as incorporam de maneira literal e visceral.
A exposição aprofunda uma pesquisa que atravessa sua trajetória: a tentativa de preservar afetos e rastros de pertencimento diante da impermanência. O gesto do bordado — tradicionalmente associado ao cuidado, ao doméstico e à construção paciente de narrativas — adquire aqui uma dimensão performativa e efêmera, já que a pele, ao contrário do tecido, carrega em si a marca do tempo e da cicatrização.
Com presença consolidada no circuito internacional, a obra de Catá já foi exibida em países como Estados Unidos, Alemanha, México, Brasil, Portugal, Chile, Peru e Espanha. Ao longo de sua carreira, o artista recebeu importantes reconhecimentos, entre eles o primeiro prêmio de artes visuais do Conselho Provincial de Ourense (2010 e 2019), o prêmio Reganosa (2015) e o prêmio de arte mural no festival AMARTE Burela (2019). Também integrou residências de destaque, como o programa Silk Road Artists’ Rendezvous, na China.

Horizontes. Memória e pele deriva de uma série anterior em que Catá bordava, na palma das mãos, rostos de pessoas próximas — um gesto de homenagem que buscava inscrever a permanência no efêmero do corpo. A esse repertório, somam-se paisagens de lugares como México, Beijing e Espanha, expandindo o campo afetivo de sua obra para além das relações pessoais e aproximando-o de uma cartografia emocional do mundo.
Ao transformar a pele em arquivo e paisagem, David Catá propõe uma reflexão potente sobre aquilo que nos constitui — não como algo fixo, mas como um processo contínuo de inscrição, apagamento e reconstrução. Em tempos de deslocamentos intensos e identidades em trânsito, sua obra sugere que pertencemos, sobretudo, às marcas que escolhemos — ou que suportamos — carregar.
ENTRE O CORPO E O TERRITÓRIO
Deslocando a paisagem para o corpo, David Catá propõe uma inversão simbólica: o que antes era contemplado à distância passa a ser incorporado, inscrito na pele como memória viva. As imagens, registradas em fotografia e vídeo, evidenciam essa fusão entre corpo e espaço, sugerindo uma continuidade entre o sujeito e o mundo que o cerca.
Mais do que um conjunto de obras, “Horizontes” se constrói como uma experiência sensorial e reflexiva, em que o corpo deixa de ser apenas suporte para se afirmar como lugar de inscrição da memória e da identidade — um espaço onde se cruzam afeto, tempo e pertencimento.
“A técnica que o artista utiliza para bordar em sua própria pele, obviamente, impressiona e é completamente admirável, mas o que nos impactou ainda mais e nos parece altamente relevante é a profundidade dos motivos que o fazem empregar esse método. Porque a costura da obra vai somente até a epiderme, é superficial, mas os motivos que provocam essa intervenção mergulham e alcançam as profundidades da alma do David. Isso é arte em sua maior plenitude.” —Aline Pereira da Encarnação, Gestora cultural do Instituto Cervantes do Rio de Janeiro
ELEMENTOS NATURAIS E DIÁLOGO COM O RIO DE JANEIRO, ONDE BORDARÁ UMA PAISAGEM
Na seleção apresentada em Horizontes. Memória e pele, David Catá desloca o olhar para a natureza como uma linguagem comum, ao mesmo tempo universal e profundamente humana. Nos registros fotográficos, o artista constrói composições em que a palma de sua mão — marcada por linhas de bordado — se justapõe à paisagem, criando um diálogo direto entre corpo e território. Não se trata de representação, mas de fricção: as imagens sugerem que lembrar é também inscrever o mundo na própria carne.
A série se expande com trabalhos como Reminiscencias, Abismos e La vida tras la ventana, reunindo cerca de 33 fotografias coloridas. Em todas, a paisagem deixa de ser contemplada à distância para ser tocada, percorrida e incorporada. Essa operação ganha especial ressonância no Rio de Janeiro, onde a natureza não se apresenta como pano de fundo, mas como presença viva, moldando a experiência cotidiana. É nesse contexto que o artista realiza uma nova intervenção: após uma pesquisa sensível sobre o entorno, Catá elegeu o horizonte do Pão de Açúcar, visto a partir da Praia de Botafogo. A paisagem — que articula montanha, vegetação, céu e mar — será bordada sobre sua pele já na chegada à cidade, e o registro fotográfico resultante passará a integrar a exposição.
A relação com os elementos naturais — mar, terra, horizonte — é central na poética de Catá. Mais do que observador, o artista se propõe como superfície de inscrição, partindo da ideia de que o corpo humano também é paisagem, matéria e origem. Ao mimetizar-se com o ambiente, dissolve fronteiras entre sujeito e mundo, sugerindo uma ecologia sensível em que identidade e território se contaminam mutuamente.

O projeto se desdobra ainda em uma dimensão pedagógica e coletiva. Antes da abertura, David Catá conduz uma oficina gratuita de pintura com crianças de uma escola pública de São Gonçalo, em parceria com a Secretaria de Estado de Educação do Rio de Janeiro e o Instituto Cervantes do Rio de Janeiro. Nessa atividade, os alunos pintam sobre as próprias palmas das mãos, em um gesto que ecoa e reinterpreta o procedimento do artista.
O resultado da oficina será incorporado à mostra por meio de uma vídeo-criação realizada por Catá no espaço escolar, tomando o horizonte como ponto de partida. Ao incluir essas imagens no percurso expositivo, o artista amplia sua investigação para além do corpo individual, abrindo-a para uma experiência compartilhada — em que memória, paisagem e pertencimento se constroem também no encontro com o outro.

David Catá nasceu na Galícia, Espanha, em 1988. É um artista contemporâneo multidisciplinar que combina fotografia, videoarte, pintura e música. Licenciado em Belas Artes pela Universidade de Pontevedra e primeiro classificado no mestrado em Fotografia, Conceito e Criação da EFTI, também prosseguiu estudos musicais profissionais no Conservatório Viveiro (Lugo).
A música é o fio condutor que permeia os seus projetos artísticos, criando trilhas sonoras que enriquecem as suas obras visuais. O processo criativo de David Catá centra-se num diálogo entre a memória pessoal e o ato artístico. Utiliza objetos pessoais e fotografias do seu álbum de família como fontes de inspiração, explorando temas como a natureza fugaz da vida, os vestígios físicos e imateriais e a dor emocional. Estes elementos estão profundamente enraizados na sua trajetória artística, conferindo uma dimensão emocional e evocativa ao seu trabalho.
Serviço: Exposição “Horizontes. Memória e pele”, de David Catá. Abertura: dia 9 de abril, às 19h no Instituto Cervantes do Rio de Janeiro, Rua Visconde de Ouro Preto, 62 – Botafogo – RJ. Período de visitação: de 10 de abril a 9 de junho de 2026. Horário: de segunda a sábado, das 10h às 19h. Entrada franca; classificação livre.